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31.05 Empresas jovens arrojadas que já nascem globais

Empresas jovens arrojadas que já nascem globais
31/5/2011
Kátia Simões, do Valor Econômico
 
A velocidade da comunicação, a aproximação das pessoas ao redor do mundo através das redes sociais e a possibilidade dos empreendedores, independentemente do porte, fazerem negócios em qualquer parte do planeta com eficiência e baixo custo graças à internet deram origem, desde o final dos anos 90, a um novo perfil de empresas: as chamadas "born globals", ou nascidas globais, como classificam os especialistas. Na teoria, são empresas jovens e empreendedoras que iniciam suas atividades internacionais logo após a sua criação ou em um prazo máximo de cinco anos.
 
"Há pouco mais de duas décadas pensar em uma pequena empresa que exportasse já era difícil, que dirá que fizesse negócios com vários países antes de vender no mercado interno", afirma Luís Antonio Dib, professor do Instituto de pós-graduação, pesquisa e administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppead) para negócios internacionais e um estudioso do tema.
 
"Hoje, a realidade é outra. Se o empreendedor não pensar assim e estruturar o negócio para operar sem fronteiras, dificilmente crescerá como o esperado." De acordo com o especialista, vários são os fatores que levaram ao surgimento das chamadas empresas globais, além da internet. Entre eles, a própria formação dos novos empreendedores, gente que estudou fora do país ou que mantém relações com o exterior, capaz de abrir portas com muito mais facilidade.
 
Essa foi a trajetória do empresário Wanderley Abreu Júnior, 33 anos, sócio da Storm Securities, responsável pela criação de um programa de desenvolvimento e teste de sistemas críticos - aqueles em que uma falha pode gerar morte ou ferimentos sérios em pessoas, perda de equipamentos,comopor exemplo, controle de aviões.
 
Fundada no Rio de Janeiro, em 2007, a Storm Securities teve como primeiro cliente a Agência Espacial Europeia, onde Abreu Júnior havia sido conselheiro sênior do projeto Galileo. Uma das empresas do consórcio, a Sie mens, procurou a Storm para o desenvolvimento de criptografias e segurança para um de seus sistemas críticos. Por meio deles, a empresa também chegou à Agência Espacial Japonesa. Em pouco mais de um ano de operação, a Storm possuía três grandes clientes internacionais gerando 90% de sua receita.
 
Apenas no início de 2009, com a crise econômica internacional e o mercado interno aquecido, a Storm começou a negociar no Brasil. "O meu network fez muita diferença, mas a empresa já nasceu com uma estrutura pronta para ter seus produtos certificados tanto no Brasil como no exterior. Atuar de forma global não deixa o negócio refém das oscilações econômicas e nem de um mercado só", afirma Abreu Júnior.
 
"Hoje, são 40 clientes em carteira que usam nossos softwares, entre eles, o de injeção de falhas para usinas nucleares de segunda geração e satélites, e nossos serviços de consultoria". A empresa, que está prestes a receber o primeiro investimento de um fundo de venture capital americano, espera faturar R$ 5 milhões este ano, o dobro do ano passado.
 
A atuação em um nicho específico de mercado como o trabalhado pela Storm Securities é outra característica dessas pequenas, segundo o professor Dib. "Está ocorrendo uma homogenização dos desejos das pessoas, tornando-se muito parecidos em todo o mundo.
 
Além disso, os consumidores passaram a exigir produtos especializados e personalizados, criando mercados de nicho, o que abriu oportunidades para empresas menores que, com o advento da eletrônica, conseguem competir por custos e qualidade", afirma.
 
O ciclo dos produtos também está cada vez menor, o que pede uma rápida adaptação das empresas, favorecendo as menores que são mais flexíveis. Paralelamente, o professor cita como ingredientes impulsionadores desse tipo de empresa a redução nos custos dos transportes, o maior acesso ao financiamento internacional e a maior capacitação dos próprios empreendedores e das equipes.
 
Donas de um grande conhecimento técnico, capacidade de inovação para atuar sem fronteiras e percebidas pelo mercado e pela concorrência pela diferenciação de seus produtos e serviços, as "born globals" têm como grande desafio o constante enfrentamento com os gigantes, que são mais lentos, porém têm muito mais recursos para investir.
 
Por atuar em um mundo sem fronteiras esbarram nas diferenças culturais dos mercados, o que obriga seus empreendedores a conhecer com mais rapidez como seus parceiros fazem negócio. "Não temos como dizer que essas companhias são o modelo ideal de empresa dos anos 2000, mas não há como negar que elas configuram uma tendência", assegura o professor do Coppead.
 
Os especialistas salientam que as nascidas globais podem estar presentes em qualquer segmento, mas as empresas de base tecnológica costumam ser em maior número. "Este é um universo onde tudo acontece mais rápido e as demandas se multiplicam em todas as partes do mundo, o que facilita a internacionalização das empresas que são pequenas na estrutura, mas que jogam com tecnologias e ativos únicos", afirma Felipe Borini, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
 
Segundo ele, uma das grandes vantagens de nascer com esse perfil é que as empresas ao irem para fora ou negociarem com outros mercados, passam a ter, também, acesso a novas tecnologias, firmam parcerias estratégicas, têm acesso a mais capital e ainda incrementam suas estruturas com mais conhecimento.
 
Com um produto de característica global e totalmente comercializado pela internet, a Su p e r Wa b a , com sede no Rio de Janeiro, desenvolvedora de ferramentas para aplicativos de smartphones e palms, tem apenas seis anos de atuação e mais de 35 mil licenças de uso espalhadas pelos Estados Unidos, África do Sul, Inglaterra, Chile e Brasil.
 
"Nossa ferramenta facilita a distribuição global, mas nos preocupamos desde o início em oferecer toda a documentação de instalação em inglês, atendimento e suporte na web em inglês e português, além de buscar as certificações necessárias para negociar com clientes de qualquer parte do mundo", afirma Renato Ribeiro, 39 anos, sócio da SuperWaba.
 
"A internet nos permite manter contato com empresas estrangeiras e em 2008 chegamos a ter até uma proposta de compra. Se não tivéssemos visibilidade fora do Brasil isso não teria acontecido." Com apenas cinco funcionários, a empresa espera faturar R$ 1 milhão este ano, bem acima dos R$ 400 mil registrados em 2010.